De acordo com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), entregue ontem, à presidente da República, Dilma Rousseff (PT),...
o coronel do Exército, Carlos Alberto Ponzi, que chefiou a Agência de Porto Alegre (APA) do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante o governo de Ernesto Geisel (1974 a 1979), coordenou o episódio conhecido como "Farsa de Bagé" - ato caracterizado pelo documento como 'embuste repressivo para mascarar o sequestro dos uruguaios Universindo Rodriguez Diaz, Lilian Celiberti e seus dois filhos, Camilo e Francesca'.
A informação representa um fragmento da segunda parte do relatório, denominada "As estruturas do Estado e as graves violações de direitos humanos". Através deste conjunto de documentos são contextualizadas as graves violações, apresentadas as estruturas repressivas e seus procedimentos. Também é através do volume que a CNV detalha a atuação da repressão no exterior e as alianças repressivas no cone sul e a Operação Condor (aliança político-militar entre os regimes militares da América do Sul), a qual está associada o episódio da 'Farsa de Bagé'.
Parte dos textos do segundo volume têm origem nas atividades desenvolvidas em grupos de trabalho constituídos no âmbito da Comissão, integrando vítimas, familiares, pesquisadores e interessados nos temas investigados. Um dos capítulos analisa o apoio civil à ditadura.
Sequestro emblemático
Lilian e Universindo foram sequestrados em Porto Alegre, de forma clandestina, por militares uruguaios, com a colaboração de militares brasileiros, em 1978. Quando o cativeiro mantido na capital gaúcha foi descoberto por jornalistas, os dois uruguaios, contrários à ditadura instaurada na banda oriental, foram levados a Montevidéu, onde seriam condenados a prisão. À época, as informações sobre o sequestro ganharam as manchetes internacionais, criando constrangimentos aos dois governos, que tentaram criar uma versão alternativa.
O episódio conhecido como 'Farsa de Bagé' foi abordado pelo bacharel Omar Ferri, no livro 'Sequestro no Conesul', em que revela detalhes sobre uma versão montada na Rainha da Fronteira para criar a ideia de que os uruguaios haviam ingressado de maneira espontânea no país vizinho, via Aceguá-Melo. Na obra, Ferri, que atuou em causas penais que tiveram repercussão internacional, dentre as quais destaca-se justamente o caso do sequestro de Lilian e Universindo, revisa depoimentos de um taxista bajeense, de um funcionário de uma empresa de ônibus que à época operava a linha entre as duas cidades (Bagé-Melo) e outros documentos, comprovando a inconsistência da versão.
Sobre a CNV
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) foi criada por lei, em 2011, e instituída em maio de 2012, com a finalidade de apurar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Em pouco mais de dois anos, a CNV colheu mais de 1,1 mil depoimentos e realizou 80 audiências e sessões públicas. Como resultado, o relatório final aponta a responsabilidade de agentes das Forças Armadas nas violações de direitos humanos, entre eles Ponzi e os presidentes do período, generais Castelo Branco, Costa e Silva, Ernesto Geisel, João Figueiredo e o bajeense Emílio Médici.
Ontem, em entrevista à Agência Brasil, o coordenador da Comissão, Pedro Dallari, disse que os militares tiveram a chance de falar durante o processo. Uma das conclusões mais importantes do documento, ainda de acordo com ele, "é a confirmação de que as graves violações aos direitos humanos durante o período da ditadura militar foram praticadas de maneira sistemática e configuram crime contra a humanidade".
Fonte: http://www.jornalminuano.com.br