Divisa entre Serrilhada / Cerrillada mostra a falta de estrutura brasileira
Quem pega a rua Monsenhor Costábile Hipólito e segue em linha reta, em pouco mais de 60 quilômetros se depara com paisagens exuberantes, um marco, com um cemitério abandonado anexado e um núcleo com cerca de 300 pessoas. Metade de uruguaios, outra metade de brasileiros. Aquela é a região da última fronteira entre Bagé e Uruguai, dividida entre Serrilhada e Cerrillada. Para quem entra, ao lado direito da estrada, é Brasil; ao lado esquerdo, Uruguai. O que os divide não é apenas a nacionalidade, mas também o fato de ter água disponível. Do lado dos vizinhos, há água encanada. Do lado brasileiro, os moradores dependem exclusivamente da chuva, para terem como tomar banho, cozinhar e saciar a sede.
Apesar da região também fazer fronteira com Dom Pedrito, Bagé é a cidade referência para todos.
"Mas vocês têm certeza que não querem entrar?", a indagação foi uma das mais ouvidas pela reportagem enquanto esteve na localidade. A simpatia formal, costumeira entre os mais antigos, perdura por lá. A uruguaia Lelia Muños vive na região desde a adolescência. Lá, encontrou o brasileiro Baltazar Bálsamo, com quem casou e formou família. Segundo ela, a tranquilidade é a melhor característica. "Podemos deixar as portas só encostadas, sair e quando voltarmos, sabemos que tudo vai estar como deixamos", define. Para Lelia, a infraestrutura também não deixa a desejar, já que possuem atendimento médico, escola até o nono ano, que no Uruguai equivale à primeira parte do ensino médio, água e luz. "Aqui é o melhor lugar do mundo, temos trabalho, temos tudo", elogia Bálsamo.
Dependentes da chuva
Nascido no Uruguai, registrado em Dom Pedrito, Luiz Alberto Verdun, serviços gerais, reclama da falta de água. "Precisamos fazer reserva quando tem chuva. E se até acabar não choveu de novo, ficamos totalmente sem água. Precisamos contar com a doação dos vizinhos que estão do outro lado da rua", lamenta.
A aposentada Gelci Rocha, brasileira, concorda com a reivindicação. "Já nos prometeram fazer poços artesianos, mas até agora nada. Estou sempre com estoques de água, mas em tempo de seca ele acaba. Aí o colégio uruguaio nos empresta, para não passarmos necessidades", revela. Segundo ela, em tempo de seca, vai um caminhão pipa a cada 15 dias, mas esta frequência não é o suficiente. "E quando acaba, onde que vai encontrar? Não temos solução", reivindica.
A coordenadora de Relações Internacionais em Bagé, Cláudia Moraes, afirma que esta é uma questão complicada. "Nesta semana temos uma reunião com o prefeito Lídio Bastos, de Dom Pedrito, para procurarmos uma forma de levar água até estes moradores", adianta.
A estrada
Apesar dos problemas com a água, o maior incômodo para todos os moradores da Serrilhada/Cerrillada é a estrada que os liga a Bagé. Gelci aponta como um problema grave. "Ônibus só vem quando o tempo está bom. Então se está com doença, tem que arrumar uma condução e isso custa muito caro, não temos condições", argumenta. Já aconteceram situações em que os moradores ficaram ilhados, pois em função das chuvas, as duas saídas - para o lado brasileiro e o uruguaio - ficaram interditadas.
Jorge Castro, trabalhador rural, tem dupla nacionalidade. Quando precisa de algo que não existe na região, opta por ir a Rivera. "Esta se tornou a referência da minha família, pois é o melhor caminho. Ainda que seja mais longe, em poucos quilômetros encontramos o asfalto, enquanto para ir a Bagé é um grande trecho em péssimas condições", avalia.
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural de Bagé é a responsável por manter a via. De acordo com o titular da pasta Émerson Menezes, o que impede de manter o serviço é o tamanho do trecho. "São mais de 60 quilômetros. Quando estamos na metade do caminho, vem uma chuva e desmancha o trabalho que foi feito até ali. Então demora bastante tempo para cumprirmos todo o cronograma. Sabemos da dificuldade, inclusive já deu acidentes naquela região. Por isso, vamos colocar uma segunda equipe a trabalhar a partir da fronteira em direção a Bagé, até encontrar as máquinas que estão indo para agilizar esta demanda", promete. Segundo ele, como a estrada é de tráfego de caminhões pesados, isso também influencia nas más condições da via.
Quanto ao asfaltamento, que é um assunto que vem sendo abordado desde 2009, Cláudia afirma que ainda está em fase de projeto. "Aguardamos passar as eleições aqui e no Uruguai, para conseguirmos uma agenda com o governo uruguaio para continuarmos estas negociações", resume.
A economia
Um dos comércios da região pertence a Elói Rocha. Na padaria, vende bolachas, pães e produtos alimentícios. O visual retro se complementa com uma balança analógica: os produtos são vendidos a granel, conforme a quantidade que o cliente quer. E o "fio do bigode" ainda tem muito valor, no caderninho das dívidas. "Eu sempre trabalhei em comércio, aqui mesmo. O patrão foi embora e me deixou com o espaço. Minha freguesia está dos dois lados da fronteira e vivo bem com o que ganho aqui", sentencia. Para manter as prateleiras cheias, ele vem ao centro de Bagé para comprar os mantimentos, pois poucas empresas vão até lá fazer a venda no atacado.
A diferença entre os preços de um lado e outro da fronteira não existe mais, conforme os moradores. Castro afirma que a criação do Mercosul acabou com a disparidade. "Tudo ficou muito parecido. Alguns itens que têm uma pequena diferença, como o diesel uruguaio é mais caro, já o gás de cozinha brasileiro é mais caro", exemplifica.
A uruguaia Andrea Castro aponta um problema na economia local: a falta de emprego para as mulheres. "Os homens têm emprego nas propriedades rurais, mas as mulheres não. Nós não temos opções de onde trabalhar", reclama.
Como é um povoado pequeno, não há todo o tipo de comércio. Por isso, as Lojas Obino se propõem a ir lá a cada três meses com um caminhão de produtos. Segundo a gerente Magda Villar, se estabeleceu uma relação de confiança dos dois lados. "Nem todo mundo tem como comprovar renda, então nós parcelamos no crédito próprio da loja e o resultado é muito positivo. Os pagamentos são em dia, eles chegam a ligar para cá para avisar que produtos estão precisando, para que a gente já leve na próxima vez que for. Costumamos ficar dois dias lá, para fazer todas as vendas. Nós conquistamos os clientes e eles sabem que podem contar conosco. E quando vêm à cidade, eles costumam passar aqui na loja para comprar também", conta.
A educação
Gelci vive na região desde que nasceu e hoje vê seus netos crescendo na Serrilhada. Segundo ela, a educação é satisfatória. "Aqui tem até o nono ano. Depois, quem tem mais dinheiro, costuma ir estudar em Rivera. Um dos meus filhos chegou a estudar lá, mas como tinha que manter outra casa, o que era difícil, não pôde continuar os estudos", relembra. Hoje, a neta estuda na escola uruguaia, que fica em frente à sua residência e ainda não tem planos se continuará estudando ou não.
Rocha também tem um filho em idade escolar. Mas ele só vai ver o pai aos finais de semana, pois durante a semana estuda em Bagé. "Como tinha casa na cidade, ele foi morar com a mãe lá para poder continuar os estudos até a faculdade", relata.
A saúde
Um dos itens mais elogiados pelos moradores é o acesso à saúde. Em uma pequena casa, no lado uruguaio, fica a Policlínica. E ali dentro não há fronteiras. A cada 15 dias vai uma equipe com médico, dentista, técnico em enfermagem e assistente odontológico de Bagé atender à população. O governo uruguaio também oferece, com a mesma frequência, seus serviços médicos. E não há distinções: não importa a nacionalidade, todos são atendidos por todos.
O lugar ideal
Um "boteco de campanha", com salame, cachaça, papel higiênico, margarina e todos os produtos necessários para a despensa. Este é o empreendimento que Jaime Regert mantém há 34 anos na região da Serrilhada/Cerrillada. "Eu sempre tive o sonho de ter um bolicho de interior e os amigos diziam que eu era louco se fizesse isso. Um dia sai de Bagé e vim por esta estrada. Ao chegar aqui, foi o primeiro lugar que parei. Vi uns rapazes pintando a casa e perguntei o que era. Eles responderam que o patrão queria alugar para comércio. Fechei o negócio e em uma semana já estava recebendo os primeiros clientes", recorda.
Para prosperar, Regert se adequou ao local. Em seu estabelecimento aceita reais, dólares e pesos, pois as três moedas circulam na região. O dólar entra em cena porque o peso uruguaio é muito desvalorizado. "Peguei épocas em que era muito rentável um comércio nesta área. Hoje não é tanto, pois nossa moeda está mais valorizada, então vale a pena a gente comprar no Uruguai e não vice-versa. Quando vim, diziam que eu ia morrer de fome e até hoje estou vivendo bem", arremata.
Em pouco tempo, ele estava acostumado com os costumes locais. "Aqui todo mundo mistura a língua portuguesa e a espanhola e entendem tudo. Eu acredito que o principal motivo é a influência da televisão. A Rede Globo e as rádios brasileiras pegam aqui, já as uruguaias não. Então todo mundo sabe das notícias brasileiras, das novelas e da cultura", explica.
O empresário possui bens e família em Bagé, mas optou por viver naquela fronteira. "Estou desde 1980 e quero morrer aqui", enfatiza. Segundo ele, o que o faz ter esta certeza é o fato do conjunto da obra ser bom, ou seja, é um lugar pequeno, a vizinhança é legal e a tranquilidade é constante.
Fonte http://www.jornalminuano.com.br/